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O LÚDICO NA POESIA DE MARIO PIRATA Imprimir E-mail

Luana Bitencourt Gomes

(Mestranda em Teoria da Literatura - PUCRS)

O LÚDICO NA POESIA DE MARIO PIRATA

É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu.


D. W. Winnicott

A poesia, mesmo para crianças, também possui uma estética visual, uma sonoridade. Ela tem ritmo, sentimento, movimento, vida.

A poesia de que iremos tratar aqui não é doutrinadora, moral, didática. Ela não se refere ao bom senso nem às boas maneiras. O que encontraremos neste estudo será uma poesia libertadora, enriquecedora, mágica e, aciama de tudo, lúdica, com o objetivo de comprovar que essa ludicidade na palavra trata-se de uma das formas mais atrativas e capazes de aproximar a criança da leitura da poesia, sendo uma fonte criadora de interesse.

Para que tais características sejam encontradas, para que se verifique a competência desse lúdico, escolhemos a obra O fazedor de Balões, do poeta gaúcho Mario Augusto Pirata Franco de Oliveira, nascido em Porto Alegre, no dia 19 de agosto de 1957. Juntamente, como suporte teórico do estudo, aplicaremos a teoria de Gloria Maria Fialho Pondé, que apresenta uma vasta lista de artigos e trabalhos voltados para a análise e o entedimento da poesia infantil brasileira.

Sabemos que a poesia sempre acompanhou o ser humano, desde muito cedo, através das cantigas de ninar, dos jogos e bricadeiras e também das canções folclóricas. Isso porque a poesia é a limguagem que mais revela o homem, pois consegue tornar visível algo abstrato – como os sentimentos – em realidades quase palpáveis.

Segundo Gloria Pondé, a poesia para criança segue duas direções que são comuns à poesia em geral:

O experimentalismo e a quebra da discursividade, por um lado, e a reutilização do folclore e das formas mais tradicionais, por outro. Entre estes dois pólos, uma gama de estilos se descortina, dentro do espírito de liberdade de criação que carácteriza o nosso tempo.1

A liberdade de criação lírica elabora de outra maneira a linguagem, que se distancia do pensamento racional e científico. Isso porque a postura do poeta e da poesia é diferente diante do mundo. Pondé, abonando-se do pensamento de Amado Alonso, afirma que

o poeta não tem uma visão do mundo ordenada em saber racional com seu sistema de conhecimentos, como os filósofos; nem se quer necessita de uma visão totalista do mundo e da vida, por difusa que seja, senão uma visão pessoal das coisas adequadas à unidade emocional do momento.2

É com a criação de novas linguagens e a ruptura com a linearidade da frase, que a poesia infantil ganha valor estético e atinge melhor o seu receptor, respeitando assim, o mundo da criança, que tem uma lógica e característica particulares.

A poesia, por privilegiar o todo e não as partes, propicia maior empatia e rapidez de apreensão, pois segundo Ponde, “deste modo, ela aproxima, pela emoção, o eu que compõe do eu que lê”3.

Utilizando uma lógica libertadora, como veremos em Mario Pirata, a poesia atribui à palavra uma grande força, pois ela não diz o que é, e sim, o que poderia ser, transfigurando a realidade pelo ato de criação. A palavra não representa, ela passa a apresentar através da força da linguagem poética.

De acordo com Glória Maria Pondé, a poesia apresenta um papel fundamental para a criança, pois é um dos meios que ela encontra para escapar do domínio do adulto. Isso porque, conforme a autora:

A poesia elimina a distância entre o eu e o objeto. A palavra se torna mágica porque, à medida que evoca, presentifica o objeto. Este processo de reificação é muito comum entre as criança, porque ainda não dominam a noção de distanciamento temporal nem de abstração. Seu tempo é um presente contínuo e indefinido – por isso, o ato de reviver da poesia lhe é familiar.4

O lúdico na poesia infantil aparece de diversas formas e maneiras. Para Regina Zilberman,

a valorização do lado lúdico da linguagem propiciou a expansão da poesia endereçada à infância, a partir dos anos 80. Introduzindo, nos versos e nas estrofes, a perspectiva da diversão, do jogo, da brincadeira, o gênero poético pôde se livrar dos problemas que experimentou principalmente na primeira metade do século XX.5

A ludicidade aparece na fantasia, no jogo, na brincadeira, na despadronização da realidade e no nonsense.

O lúdico é uma característica marcante na poesia de Mario Pirata. O ludismo aparece de diversas formas em sua arte, desde as brincadeiras infantis propriamente ditas até o jogo de palavras usado pelo poeta.

Pirata associa imagem, idéias e sons. A partir de brincadeiras infantis, inspira-se para explorar o aspecto visual e o ritmo, o que se pode perceber no poema Mistério, composto de quatro estrofes, em que as três primeiras são formadas por perguntas que questionam o leitor e a última apresenta a resposta. Como podemos observar abaixo:

Mistério

Quem foi que atirou

o pau no gato

e deixou a canoa virar?

Quem buscou água no tororó

e mandou o Jacaré sentar

na cadeira da Vovó?

Quem foi que viu

o quartel pegar fogo

e o Cravo beijar a Rosa?

Foi a poesia, foi a poesia

que caiu feito um balão

na palma da minha mão.

O poeta tem como proposta fazer perguntas referentes ao mundo infantil, utilizando trechos de cantigas e brincadeiras folclóricas claras no poema. Propicia, de forma muito adequada, a apreensão do pequeno leitor, pois apresenta uma simplicidade característica do folclore. Pirata brinca com o som, com as palavras e com a forma de adivinha através de perguntas que conduzem o leitor mirim ao mundo já conhecido e habitado por ele.

Juntamente com o lúdico, encontramos o ilogismo na poesia de Mario Pirata, ou seja, o poeta utiliza uma lógica que normalmente não é usada pelo adulto. Pirata brinca e ilustra a palavra em vez de conceituá-la, sendo, segundo a classificação de Glória Maria Podé, um ilogismo emancipador: “quando permite a exercitação do pensamento lógico, isto é, quando joga ludicamente com a quebra e a reconstituição dos esquemas lógicos.”6

Valorizando o lúdico, exercitando a brincadeira e estabelecendo uma conexão entre o brincar e o escrever, encontramos também na obra O fazedor de Balões o poema intitulado Todo mundo diz que a Aranha, que segue:

Todo mundo diz

que a Aranha

vai para a Espanha

comer lasanha.

Ela faz nada disso,

o capricho dela

é fazer teia

e jogar bola de meia.

A procura por imagens e símbolos da infância, como jogar bola de meia, o brincar por brincar, o nonsense, como a imagem de uma aranha indo à Espanha, permite com que a criança se identifique com os versos.

Encontramos na mesma obra o poema chamado Minhocas, composto de seis estrofes, sendo cinco delas de quatro versos e uma apenas, a antepenúltima, composta de cinco. O verso inicial de cada uma das estrofes do poema é composto por uma expressão clássica do mundo da criança, o “Era uma vez...”, como possível acompanhar abaixo:

Minhocas

Era uma vez

uma minhoca muito comprida

que não gostava

de comer comida.

Era uma vez

uma minhoca engraçada

que dormia

toda enrolada.

Era uma vez

Uma minhoca muito sapeca

que adorava

jogar peteca.

Era uma vez

uma minhoca que gostava

de jogar bola

e fugiu da escola.

Era uma vez

uma minhoca muito gorda

e tão gorda tão gorda era ela

que não passava pela porta

mas passava pela janela.

Era uma vez

uma história de minhocas

para ser desenhada

por criança bonita.

Podemos perceber nesse poema que o autor utiliza elementos e situações presenciadas e muitas vezes vivenciadas pelo leitor infantil, como por exemplo, não gostar de comer, jogar peteca, jogar bola. Brinca com diversas características, com o estereotipo gordo, comprida, engraçada, que são elementos muito presentes na infância, principalmente no período escolar da criança, o que gera os apelidos e as piadas.

Pirata, após citar várias particularidades para as várias minhocas existentes no poema, deixa, na última estrofe, um espaço em aberto para que por fim cada criança imagine, desenhe, crie e brinque com a minhoca que inventar.

A importância da imagem na poesia não é a de parecer verdade, ela transfigura a realidade pelo ato de criação. Segundo Glória Maria Ponde, ”a imagem é econômica e enriquecedora por que ao fundir dois elementos distintos, conserva-lhes as características próprias, acrescentado-lhes novas significações. A imagem, portanto, viola as leis do pensamento cientifico”.7

Mario Pirata consegue trabalhar em sua poesia com a imagem de forma clara o que não remete ao empobrecimento e a superficialidade, o poeta consegue de forma lúdica apresentar um mundo mágico, aproximando o encantamento verbal e o encantamento imagético, possibilitando que a criança escape da razão do mundo adulto, possibilitando que ela atinja outras leituras do mundo.

Percebe-se que a poesia de Mario Pirata apresenta um grande valor estético, porque além de respeitar o universo infantil, apresenta uma lógica particular e característica. O poeta percebe esse mundo com muita sensibilidade e não simplesmente com a lógica e com o olhar de um adulto.

Mario Pirata, em seus poemas, sem se afastar das formas folclóricas e associado à brincadeira, promove um mágico encontro entre a linguagem e a imagem. Pirata alia temas populares a uma forma inovadora, criando uma poesia moderna que agrada não só as crianças, como os adultos.

O trabalho de Mario Pirata não visa a doutrinação nem o moralismo, são poemas que, por lidarem com o lúdico e o ilogismo, acabam tendo um caráter de jogo, demonstrando um profundo respeito e conhecimento do universo infantil. O poeta consegue colocar-se no mesmo mundo da criança, sem se tornar tolo.

Referências

PIRATA, Mario. O fazedor de balões. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003.

PONDÉ, Glória Maria Fialho. Poesia e folclore para a criança. In: ZILBERMAN, Regina (org.). A produção cultural para a criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990. pp. 117-146. p. 118.

ZILBERMAN, Regina. A literatura Infantil Brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

1 PONDÉ, Glória Maria Fialho. Poesia e folclore para a criança. In: ZILBERMAN, Regina (org.). A produção cultural para a criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990. pp. 117-146. p. 118.

2 Idem, p. 121.

3 Idem, p. 123.

4 Idem, p.125.

5 ZILBERMAN, Regina. A literatura Infantil Brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005. p. 129-130.

6 PONDÉ, Glória Maria Fialho. Op. cit nota 1, p. 124.

7 Idem, p. 125.

 
APRESENTAÇÃO DE MARIO PIRATA Imprimir E-mail

Por Marô Barbieri

APRESENTAÇÃO DE MARIO PIRATA



Pois, então, pra mim, no Mario Pirata tem o Mario Amigo e tem o Mário Poeta.

Pra falar do Mário Amigo, tem que falar de emoção, de delicadezas, de charme e de consistência. Quem olha, não diz. Atrás do sorriso imenso, da fala ingênua, do jeito bonachão, esse jeito de palhaço atrapalhado, tem um cara sério e ponderado. Praticamente um senhor de família, o Mário Augusto. Com duas filhas, casa, pátio e tudo o mais. Tem um homem que pensa o mundo, atento, crítico, ciente do seu tempo. Mas um homem-artista.

Quem vê o pandeiro, a ginga, a fala mansa, nem imagina como este cara é sério. Como ele é preocupado com o descompasso das pessoas e do mundo. Só que ele só fala destas coisas quando é necessário, quando tem que dar opinião, quando a opinião vai fazer diferença. Senão, pra quê?

Mário é econômico na palavra, na palavra comum. Mas no que ele não faz economia, é no sentimento.

(...) A palavra fica bonita
recheada de sentimento.(...)

Dá impressão que ele ama o mundo inteiro: borboleta, vento, pipoca, ônibus, natureza, abraço, feira, cadeira de balanço, comida boa, lâmpada acesa, vinho, chuva, enfim. E tudo sem fim.

Tem alma grande, o amigo. Porque ter alma já é coisa difícil hoje em dia e alma grande, só poucos tem. Por isso, por onde vai Mário, faz amigos. É quase inevitável a gente ficar amiga dele. Porque sua alma não tem uma só porta. Tem várias, que se abrem sem restrição. Pra ele, quem vem, pode ir chegando que tem lugar. Bonito, isso. Bonito e bom, num mundo onde as portas mais se fecham do que convidam a entrar.

E tem outra: a gente se aninha, perto do Mário. A gente chega e vai ficando. Acho que ele não manda ninguém embora. Pra ver que alma grande ele tem!

Outra última coisa sobre o Mário. Ele é daqueles amigos que pode passar o tempo que quiser, quando a gente se encontra, pode recomeçar a conversa exatamente do ponto em que ela estava. Sem problema. Porque com o Mário é assim, a gente faz um laço tão forte que não separa nunca mais.

Agora, pra falar do Mário Poeta, bom, aí já é preciso chegar perto dO Fazedor de Balões, do Bicho Poesia, dos Dois Amigos, de As minhocas também amam e mamam.., do Cambalhotas, de Calcinha Rosa na Cadeira de Balanço e de Um pé-de-vento de nome Huá. Desses textos todos, alguns já antigos e fora do palco.

Eu cheguei bem perto e daí, como eu sou professora, fiquei fazendo observações.

Primeira observação: o poema do Mário não é pretensioso como aqueles que se derramam e se impõem sobre folhas e folhas de papel, como aqueles que desfiam alexandrinos clones.

Porque tem gente que pensa que poema bom tem ocupar muito espaço, tem que ter estrofes e estrofes que é pra todos pensarem: isso sim é que é fôlego! Isto sim é que é poema! Poema pode ser curtinho e, ainda assim, ser bom e profundo. Alguns até muito bons. Tem é que deixar o leitor pensar, é ele quem encomprida o alcance do poema.

Não acho que se meça qualidade de poema por metro. Nem por folha. Nem por outra medida que não seja o claro compromisso com a construção de arte. De arte, com palavras. Curto (ou até comprido) mas fazendo diferença na vida de quem lê.

Segunda observação: o poema do Mário vai solto pela vida e mesmo compenetrado não se leva muito a sério, que poesia também é fala leve, inconsútil mas com fundamento. ( Inconsútil é a glória, hein? )

Esta é a diferença entre o poema curtinho e bobo e mal feito e o poema curto, dizendo bem o que quer dizer. E daquele jeito, não outro.

No poema do Mário, tem jogo de palavras, tem jogo de sentidos, tem brincadeira, tem imagética, tem reflexão.

Tem jogo de palavras:

o chimpanzé
chamado Zeca
é chimpanzé
ou chimpanzeca?

(em "Bicho-Poesia" - Editora Paulinas - SP - 1997)

Tem jogo de imagem:

Céu lindo.
A lua pendurada
é um brinco.

(em " O fazedor de balões" - Editora Mercado Aberto - POA - 2003)

Tem reflexão:

HAI CAI DO TERCEIRO MUNDO

Criança dormindo na rua
Quem finge que não vê,
acaba não vendo que finge.

(em " O fazedor de balões" - Editora Mercado Aberto - POA - 2003)

Tem reflexão e jogo de palavras:

PEQUENA ORAÇÃO

Tem a palavra eu
Tem a palavra Deus

Dentro da palavra Deus
Tem a palavra eu

A palavra eu
É o miolo da palavra Deus

(em " O fazedor de balões" - Editora Mercado Aberto - POA - 2003)

E tem um Mário lírico, cheio de coração:

latitude urgente

É preciso mexer no mecanismo dos ventos,
incendiar o medo
colocar um rock-frevo no toca-discos.
Compor atmosfera nova,
sabotar o tempo, parir
temperatura leve, aquecida
Diminuir a pressão em todas as altitudes
diminuir a pressão de todas as latitudes
Mas sobretudo é preciso soltar
a fera de um novo amor.

( em "Cambalhota" - Coleção Petit Poa, SMC de Porto Alegre, 1992)

Quer dizer, os poemas dele têm o que o poema precisa.

Só que o poema do Mário não dá pra ler correndo. Tem que pegar na perna dele, olhar com cuidado, ver de novo até entender bem. Tem que ser despojado, tem que tirar os enfeites que sobram, tem que ser simples.

Esta é a palavra: simples.

O Mário é um sujeito simples, que faz poemas que parecem simples, uma simplicidade sábia, aprendida no viver da vida, caminhando, gostando, carregando o melhor e deixando por aí o que não interessa. Sabendo que tem valor e beleza na simplicidade.

Tem gente que vive cem anos e não descobre isso. Mário Augusto já nasceu sabendo.

por Marô Barbieri - para o Palavra no Ar - 12 de maio de 2005
Associação Gaúcha de Escritores - Casa de Cultura Mário Quintana.

 
POESIA PIRATA NAS ÁGUAS DO GUAÍBA Imprimir E-mail

Por Marciano Lopes


POESIA PIRATA NAS ÁGUAS DO GUAÍBA


Sobre Mario Pirata e seu livro Calcinha rosa na cadeira de balanço (Porto Alegre: Tchê, 1988 - esgotado)

É preciso mexer no mecanismo dos ventos,
incendiar o medo,
colocar um rock-frevo no toca-discos,
compor atmosfera nova,
sabotar o tempo, parir
temperatura leve, aquecida.
Diminuir a pressão em todas as altitudes,
diminuir a pressão em todas as atitudes.
Mas sobretudo é preciso soltar
a fera de um novo amor.

(Mario Pirata, Latitude urgente)

Nascido em Porto Alegre, em 19 de agosto de 1957, Mario Pirata (cujo nome de batismo é Mario Augusto Franco de Oliveira) é o escolhido para abrir a seção Balaio de Letras por se tratar de um artista e poeta bastante representativo de sua geração. Representativo não pelo tamanho de sua produção literária, que, apesar de boa, é pequena, mas por ser um dos responsáveis pelo retorno da poesia às ruas, praças, bares e escolas. Depois de participar com os poetas Alexandre Brito, Eliel Brizola, Ricardo Maineiri, Gijo, Pablo Mello, Ricardo Silvestrin, Ricardo Portugal, João Ângelo e outros de diversas rodas de poesia, Mario Pirata forma, com Pedro Marodin e Caio Gomes, o grupo Camões Baby. Então, a partir de 1985, firma-se o evento. Ao som do pandeiro e animado pelas palmas do público, a Roda de Poesia rolava (e ainda rola) no Brique da Redenção, feira de artesanato, artes e antiguidades do Bom Fim, que ocorre no Parque da Redenção, aos domingos, das 9 às 18 h, e reúne, além dos expositores e do público, diversos artistas que se apresentam ao longo da avenida (capoeiristas, palhaços, mímicos, músicos, atores de teatro etc.) e vão formando outras tantas rodas.*

Além de poeta, é importante salientar que Mario Pirata (o Mario é sem acento mesmo) também é artesão e “oficineiro”, pois tais atividades estão intimamente associadas à sua produção literária. Além da Roda de Poesia, Mario também é pioneiro na venda de cartões poéticos, cuja arte ele mesmo faz, e realiza desde muito tempo oficinas de poesia – principalmente com crianças. Em que medida tais práticas e o amor por elas determinam a sua preferência pela literatura infantil e por um olhar poético ingênuo sobre o mundo é difícil responder, mas é fato que a maior parte da sua produção é composta de obras infantis e que a sua poética está pautada na máxima oswaldiana dever o mundo com olhos de criança. Até mesmo a poesia voltada para um público adulto possui o olhar e o tom infantis, podendo, por tal motivo, ser inscrita numa tradição poética que Lúcia Helena chama de linha do muito riso e do pouco siso – em oposição à linha do bom senso e do bom gosto expressiva, segundo Luís Felipe Baeta Neves, de uma ideologia da seriedade”.

A tradição do muito riso e do pouco siso, que pode ser considerada como uma contra-ideologia da seriedade, caracteriza-se por um discurso antropofágico e sua tradição no Brasil remonta a Gregório de Matos, Sousândrade, Oswald e Mário de Andrade, sendo que no Rio Grande do Sul, no que toca à poesia, ela praticamente inexiste. Excetuando-se Aparício Torelly (Barão de Itararé) e Mário Quintana, a poesia sul-riograndense é marcada pela seriedade, por preocupações metafísicas e político-sociais (veja-se Armindo Trevisan e Carlos Nejar, como exemplo).

Na esteira de Mário Quintana, Mario Pirata volta-se para o humor, para o cotidiano e para a infância, recuperando a beleza, o lirismo e a poesia contida nesses elementos. E faz isso bebendo na estética modernista, aproximando-se principalmente de Oswald e Mário de Andrade. A “poesia-minuto”, o “poema-piada”, formas sintéticas como o haicai e a quadra (de extração popular), a temática do cotidiano, a dicção e o olhar infantis, os temas do índio e da natureza são traços marcantes em sua poesia que, sem dúvida, revelam a paixão do autor pela Poesia Pau-Brasil e pela antropofagia oswaldiana. Em seu segundo livro, Calcinha rosa na cadeira de balanço, esta paixão é abertamente declarada em epígrafes e citações, sejam paródicas ou não. Exemplos disso são os poemas Porto Alegre, Macunaimando e Olhos limpos. No primeiro, o poeta parodia a famosa máxima da “contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos” e ainda cita, sutilmente, o poema Solidão – do livro Caderno do aluno de poesias Oswald de Andrade. Em Olhos limpos, afirma a sua concordância com a máxima antes citada, também do Manifesto Pau-Brasil, de “ver o mundo com olhos de criança”.

pela contribuição

miserável

de todos os versos

o céu

jogava

tinas de água

sobre

o poema

que me devolvia

a cidade.

(Porto Alegre)

Colhendo

pequenas esperanças

na beira

de um precipício

sobre o qual balança

a terna ponte da poesia

minha vida é uma menina

penteando os cabelos.

(Olhos limpos)

As características apontadas revelam uma visão mítica e mágica do mundo. Visão que se opõem radicalmente à violência, à miséria e à massificação das grandes cidades, assim como ao pensamento lógico e pragmático do capitalismo. A ingenuidade resultante do olhar infantil e a valorização do lúdico em si fazem da poesia prazer e jogo , brincadeira capaz de conquistar as crianças e as pessoas cujo endurecimento das fibras não secou as fontes de ternura. A melhor evidência de que este olhar se encontra disseminado na poesia de Mário Pirata encontra-se nos poemas de cunho erótico, em que os signos da sexualidade e do erotismo são também signos da infância e do jogo.

Sêmen seco

vira frio farelo

no lençol

fio de cabelo

teu, anzol.

(Walkíria)

As conchas do mar

nascem do leite

dos peixes menstruados.

As conchas do rio

nascem da saliva

das piranhas esfomeadas.

As conchas do corpo

nascem do suor

do coração apaixonado.

(As conchas)

Lado a lado com o erotismo, o exercício do lúdico dá bons e saborosos frutos através do uso de quadrinhas e jogos lingüísticos típicos das brincadeiras de roda. A valorização do ritmo e da melopéia muitas vezes descarta a lógica em favor do nonsense e da alegria. Dessa forma, a poesia nos convida para novamente vivermos o universo mágico da infância ao mesmo tempo que anula a dimensão pecaminosa do sexo.

Tanto fez, tanto faz.

Rede ou anzol.

Na frente ou atrás.

Manta ou cachecol.

Tanto fez, tanto faz.

Minhoca ou caracol.

Quem leva, quem traz

Sustenido ou bemol.

Tanto fez, tanto faz.

A lua ou o sol.

A guerra ou a paz.

Cobertor ou lençol.

(Bolinho de banana)

Mas como tudo na vida tem, no mínimo, dois lados, é preciso reconhecer que a consciência negativa da modernidade e o humor mais ingênuo do que crítico o afastam da poética modernista de Oswald e Mário de Andrade e comprometem, em alguns momentos, a força da sua poesia. Se, por um lado, o olhar infantil lhe possibilita atingir um público amplo, em especial formado por jovens e crianças (o que é extremamente bom), por outro lado, suaviza os temas e, por conseqüência, limita o alcance crítico da palavra. Daí a autocrítica presente em seu metapoema Abre-alas:

Jacaré não tem coleira,

formiga não tem caroço,

careço fazer do verso

mais que um simples esboço.

Jacaré não tem pescoço,

formiga não tem coceira,

careço fazer da vida

mais que uma brincadeira.

(Abre-alas)

E por ter consciência dos perigos que envolvem o olhar ingênuo, Mario Pirata consegue, em vários momentos, atingir um nível de maturidade crítica sem deixar de lado a musicalidade e o caráter lúdico que tanto valoriza. Para isso utiliza, nos seu melhores momentos, a velha e boa ironia (para reconhecê-la, pense na contradição entre os poemas e seus títulos):

Negros acham que

brancos cantam pouco.

Índios acham que

brancos falam muito.

Ciganos acham que

brancos dançam pouco.

Brancos acham tudo

e massacram muito.

(Pequena história)

Homens bêbados

e carteiros descem atrás.

Mulheres grávidas

e velhos sentam na frente.

Crianças pequenas

e anões passam por baixo.

Estudantes pagam meia

e militares não pagam.

(Coletivo)

Num balanço final, a aproximação entre a arte erudita e popular e a renúncia à uma linguagem de vanguarda, quase sempre (ou sempre?) autoritária, conferem à arte poética de Mário Pirata a virtude de democratizar a poesia. Ao fazê-lo, principalmente através da prática de levá-la aos lugares públicos, Mario recupera a dimensão social e integrativa tanto da poesia (que em sua origem está associada aos rituais mágicos e religiosos) como das narrativas populares; dimensão comunitária que se perdeu na sociedade moderna, uma vez que o caráter privado da leitura individual tem uma força dissociativa. E é dessa prática adquirida nas rodas de rua e nas oficinas de criação literária que brotam as poesias de Calcinha rosa na cadeira de balanço, o que revela uma grande virtude do autor: a de ser, sob a ótica de Gramsci, um artista popular e orgânico.

Por tais motivos, vale a pena conhecê-lo melhor (principalmente se você é professor de português e/ou literatura nos níveis fundamental e médio). Para isto, basta acessar o site do Mario Pirata clicando no endereço abaixo (e boa viagem!). Mas antes, aceite o convite de viajar no poema Urgência, que fiz em homenagem à sua poesia e ao jeito pirata de viver. Afinal de contas, é “urgente mexer no mecanismo dos ventos e soltar a fera de um novo amor".

URGÊNCIA
(conselho de pirata)

É preciso afugentar o mofo e os fantasmas,
tocar na vitrola um mágico Valença,
dançar um
baioque e levantar a poeira
cimentada pela memória.

É preciso amar, bater o pé e cantar
feito pitangueira balanceando ao vento,
depois dançar na chuva alegre rancheira
rodopiando futuro adentro!

É preciso sentar em roda e matear
ao calor da fogueira cheirosa chaleira
relinchando nos peitos
calientes folguedos
encharcados de bravatas, sonhos e beijos.

É preciso resgatar antigos diários,
trapos, cacos, fotos e farrapos,
velhas lembranças, casos, segredos e mitos
para salvá-los do imundo pó da história.

(Marciano Lopes)

*PS: Para minha tristeza, após ter redigido este texto, recebi do Mario Pirata um e-mail (em resposta ao que lhe enviei) informando que não mais participará do Brique da Redenção. Que pena... Fica o registro (de parte do e-mail) e minha solidariedade. Abraços, meu caro e não desanima.

"Marciano,

cheguei em poa e no teclado.

cara, que lindo o teu texto sobre mim. e fico feliz pois há poucos registros daquela época e muito menos visões críticas e amigas como a tua. não podes imaginar o bem que isso me faz. e vou te contar, exatamente neste momento, pouco antes do teu email, tomei a decisão de abandonar o brique, depois de 18 anos, amigo, mas isso além de doer no coração e ficar dando voltas dentro da cabeça de um cara que tinha aquilo lá inclusive como única fonte de renda fixa, dói porque sempre falei para os guris que estávamos abrindo um espaço para a poesia na cidade, estávamos abrindo a socos e beijos, estávamos construindo um naco de emoção na pele dura e castigada por ventos e discursos aqui em porto alegre. dói porque vi mudar administradores e burrocratas e percebo que nenhum e todos tiveram a mesma ineficácia e desrespeito com a Feira de Arte, Artesanato e Antiguidades do Bom Fim. Mas alegra porque fizemos muitos amigos e muita bagunça por lá - até hoje encontro pessoas que seguem pela vida guardando na memória as rodas de poesia, alegra porque por lá passaram paulo leminski, alice ruiz, mano melo, fred maia, jiddu saldanha... músicos, atores, bailarinos e crianças e crianças... a graça da praça é as pessoas praçando. e, pessoalmente, sigo carregando as marcas no meu pandeiro, das coisas que vi, vivi e aprendi naquelas bandas. (...)

DRUMMONDIANO

no meio do caminho tinha um poeta

tinha um poeta no meio do caminho

agora o poeta virou metáfora

e no caminho ficaram as pedras (mario pirata)"

(Mario Pirata, 16/01/04)