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Luana Bitencourt Gomes
(Mestranda em Teoria da Literatura - PUCRS)
O LÚDICO NA POESIA DE MARIO PIRATA
É
no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto,
pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente
sendo criativo que o indivíduo descobre o eu.
D. W. Winnicott
A poesia, mesmo para crianças, também possui uma estética visual, uma sonoridade. Ela tem ritmo, sentimento, movimento, vida.
A poesia
de que iremos tratar aqui não é doutrinadora, moral, didática. Ela não
se refere ao bom senso nem às boas maneiras. O que encontraremos neste
estudo será uma poesia libertadora, enriquecedora, mágica e, aciama de
tudo, lúdica, com o objetivo de comprovar que essa ludicidade na
palavra trata-se de uma das formas mais atrativas e capazes de
aproximar a criança da leitura da poesia, sendo uma fonte criadora de
interesse.
Para que tais características sejam encontradas, para que se verifique a competência desse lúdico, escolhemos a obra O fazedor de Balões,
do poeta gaúcho Mario Augusto Pirata Franco de Oliveira, nascido em
Porto Alegre, no dia 19 de agosto de 1957. Juntamente, como suporte
teórico do estudo, aplicaremos a teoria de Gloria Maria Fialho Pondé,
que apresenta uma vasta lista de artigos e trabalhos voltados para a
análise e o entedimento da poesia infantil brasileira.
Sabemos que a poesia sempre acompanhou o ser humano, desde muito cedo,
através das cantigas de ninar, dos jogos e bricadeiras e também das
canções folclóricas. Isso porque a poesia é a limguagem que mais revela
o homem, pois consegue tornar visível algo abstrato – como os sentimentos – em realidades quase palpáveis.
Segundo Gloria Pondé, a poesia para criança segue duas direções que são comuns à poesia em geral:
O experimentalismo
e a quebra da discursividade, por um lado, e a reutilização do folclore
e das formas mais tradicionais, por outro. Entre estes dois pólos, uma
gama de estilos se descortina, dentro do espírito de liberdade de
criação que carácteriza o nosso tempo.
A
liberdade de criação lírica elabora de outra maneira a linguagem, que
se distancia do pensamento racional e científico. Isso porque a postura
do poeta e da poesia é diferente diante do mundo. Pondé, abonando-se do
pensamento de Amado Alonso, afirma que
o
poeta não tem uma visão do mundo ordenada em saber racional com seu
sistema de conhecimentos, como os filósofos; nem se quer necessita de
uma visão totalista do mundo e da vida, por difusa que seja, senão uma
visão pessoal das coisas adequadas à unidade emocional do momento.
É
com a criação de novas linguagens e a ruptura com a linearidade da
frase, que a poesia infantil ganha valor estético e atinge melhor o seu
receptor, respeitando assim, o mundo da criança, que tem uma lógica e
característica particulares.
A
poesia, por privilegiar o todo e não as partes, propicia maior empatia
e rapidez de apreensão, pois segundo Ponde, “deste modo, ela aproxima,
pela emoção, o eu que compõe do eu que lê”.
Utilizando
uma lógica libertadora, como veremos em Mario Pirata, a poesia atribui
à palavra uma grande força, pois ela não diz o que é, e sim, o que
poderia ser, transfigurando a realidade pelo ato de criação. A palavra
não representa, ela passa a apresentar através da força da linguagem
poética.
De
acordo com Glória Maria Pondé, a poesia apresenta um papel fundamental
para a criança, pois é um dos meios que ela encontra para escapar do
domínio do adulto. Isso porque, conforme a autora:
A
poesia elimina a distância entre o eu e o objeto. A palavra se torna
mágica porque, à medida que evoca, presentifica o objeto. Este processo
de reificação é muito comum entre as criança, porque ainda não dominam
a noção de distanciamento temporal nem de abstração. Seu tempo é um
presente contínuo e indefinido – por isso, o ato de reviver da poesia
lhe é familiar.
O lúdico na poesia infantil aparece de diversas formas e maneiras. Para Regina Zilberman,
a
valorização do lado lúdico da linguagem propiciou a expansão da poesia
endereçada à infância, a partir dos anos 80. Introduzindo, nos versos e
nas estrofes, a perspectiva da diversão, do jogo, da brincadeira, o
gênero poético pôde se livrar dos problemas que experimentou
principalmente na primeira metade do século XX.
A ludicidade aparece na fantasia, no jogo, na brincadeira, na despadronização da realidade e no nonsense.
O
lúdico é uma característica marcante na poesia de Mario Pirata. O
ludismo aparece de diversas formas em sua arte, desde as brincadeiras
infantis propriamente ditas até o jogo de palavras usado pelo poeta.
Pirata
associa imagem, idéias e sons. A partir de brincadeiras infantis,
inspira-se para explorar o aspecto visual e o ritmo, o que se pode
perceber no poema Mistério,
composto de quatro estrofes, em que as três primeiras são formadas por
perguntas que questionam o leitor e a última apresenta a resposta. Como
podemos observar abaixo:
Mistério
Quem foi que atirou
o pau no gato
e deixou a canoa virar?
Quem buscou água no tororó
e mandou o Jacaré sentar
na cadeira da Vovó?
Quem foi que viu
o quartel pegar fogo
e o Cravo beijar a Rosa?
Foi a poesia, foi a poesia
que caiu feito um balão
na palma da minha mão.
O
poeta tem como proposta fazer perguntas referentes ao mundo infantil,
utilizando trechos de cantigas e brincadeiras folclóricas claras no
poema. Propicia, de forma muito adequada, a apreensão do pequeno
leitor, pois apresenta uma simplicidade característica do folclore.
Pirata brinca com o som, com as palavras e com a forma de adivinha
através de perguntas que conduzem o leitor mirim ao mundo já conhecido
e habitado por ele.
Juntamente
com o lúdico, encontramos o ilogismo na poesia de Mario Pirata, ou
seja, o poeta utiliza uma lógica que normalmente não é usada pelo
adulto. Pirata brinca e ilustra a palavra em vez de conceituá-la,
sendo, segundo a classificação de Glória Maria Podé, um ilogismo
emancipador: “quando permite a exercitação do pensamento lógico, isto
é, quando joga ludicamente com a quebra e a reconstituição dos esquemas
lógicos.”
Valorizando
o lúdico, exercitando a brincadeira e estabelecendo uma conexão entre o
brincar e o escrever, encontramos também na obra O fazedor de Balões o poema intitulado Todo mundo diz que a Aranha, que segue:
Todo mundo diz
que a Aranha
vai para a Espanha
comer lasanha.
Ela faz nada disso,
o capricho dela
é fazer teia
e jogar bola de meia.
A
procura por imagens e símbolos da infância, como jogar bola de meia, o
brincar por brincar, o nonsense, como a imagem de uma aranha indo à
Espanha, permite com que a criança se identifique com os versos.
Encontramos na mesma obra o poema chamado Minhocas, composto de seis estrofes, sendo cinco delas de quatro versos e uma
apenas, a antepenúltima, composta de cinco. O verso inicial de cada uma
das estrofes do poema é composto por uma expressão clássica do mundo da
criança, o “Era uma vez...”, como possível acompanhar abaixo:
Minhocas
Era uma vez
uma minhoca muito comprida
que não gostava
de comer comida.
Era uma vez
uma minhoca engraçada
que dormia
toda enrolada.
Era uma vez
Uma minhoca muito sapeca
que adorava
jogar peteca.
Era uma vez
uma minhoca que gostava
de jogar bola
e fugiu da escola.
Era uma vez
uma minhoca muito gorda
e tão gorda tão gorda era ela
que não passava pela porta
mas passava pela janela.
Era uma vez
uma história de minhocas
para ser desenhada
por criança bonita.
Podemos
perceber nesse poema que o autor utiliza elementos e situações
presenciadas e muitas vezes vivenciadas pelo leitor infantil, como por
exemplo, não gostar de comer, jogar peteca, jogar bola. Brinca com
diversas características, com o estereotipo gordo, comprida, engraçada,
que são elementos muito presentes na infância, principalmente no
período escolar da criança, o que gera os apelidos e as piadas.
Pirata,
após citar várias particularidades para as várias minhocas existentes
no poema, deixa, na última estrofe, um espaço em aberto para que por
fim cada criança imagine, desenhe, crie e brinque com a minhoca que
inventar.
A
importância da imagem na poesia não é a de parecer verdade, ela
transfigura a realidade pelo ato de criação. Segundo Glória Maria
Ponde, ”a imagem é econômica e enriquecedora por que ao fundir dois
elementos distintos, conserva-lhes as características próprias,
acrescentado-lhes novas significações. A imagem, portanto, viola as
leis do pensamento cientifico”.
Mario
Pirata consegue trabalhar em sua poesia com a imagem de forma clara o
que não remete ao empobrecimento e a superficialidade, o poeta consegue
de forma lúdica apresentar um mundo mágico, aproximando o encantamento
verbal e o encantamento imagético, possibilitando que a criança escape
da razão do mundo adulto, possibilitando que ela atinja outras leituras
do mundo.
Percebe-se
que a poesia de Mario Pirata apresenta um grande valor estético, porque
além de respeitar o universo infantil, apresenta uma lógica particular
e característica. O poeta percebe esse mundo com muita sensibilidade e
não simplesmente com a lógica e com o olhar de um adulto.
Mario
Pirata, em seus poemas, sem se afastar das formas folclóricas e
associado à brincadeira, promove um mágico encontro entre a linguagem e
a imagem. Pirata alia temas populares a uma forma inovadora, criando
uma poesia moderna que agrada não só as crianças, como os adultos.
O
trabalho de Mario Pirata não visa a doutrinação nem o moralismo, são
poemas que, por lidarem com o lúdico e o ilogismo, acabam tendo um
caráter de jogo, demonstrando um profundo respeito e conhecimento do
universo infantil. O poeta consegue colocar-se no mesmo mundo da
criança, sem se tornar tolo.
Referências
PIRATA, Mario. O fazedor de balões. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2003.
PONDÉ, Glória Maria Fialho. Poesia e folclore para a criança. In: ZILBERMAN, Regina (org.). A produção cultural para a criança. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990. pp. 117-146. p. 118.
ZILBERMAN, Regina. A literatura Infantil Brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
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